Guilherme Cabral — Ortopedista e Traumatologista, Cirurgia do Ombro e Cotovelo

Lesão do manguito rotador

Rotura ou tendinopatia dos tendões do ombro: sintomas, tratamento e recuperação.

O manguito rotador é o conjunto de quatro tendões que envolve a cabeça do úmero e mantém o ombro estável durante os movimentos do braço. A lesão desses tendões é uma das causas mais frequentes de dor no ombro em adultos, sobretudo a partir dos 40 anos.

O que é o manguito rotador

Ele é formado pelos tendões dos músculos supraespinal, infraespinal, redondo menor e subescapular. Juntos, eles centralizam a cabeça do úmero na articulação e participam da elevação e da rotação do braço. O supraespinal é o tendão mais acometido.

Por que a lesão acontece

Na maior parte das pessoas, a lesão é degenerativa: o tendão perde resistência com o tempo e pode se romper parcial ou totalmente, às vezes sem nenhum trauma. Em pacientes mais jovens, ela costuma ser traumática, após uma queda ou um esforço súbito.

Lesões do manguito são comuns e nem sempre causam sintomas. Em um estudo populacional japonês, cerca de 1 em cada 5 pessoas tinha alguma rotura, e a frequência aumentava com a idade. Por isso, encontrar uma lesão no exame de imagem não significa, por si só, que ela seja a causa da dor ou que precise de cirurgia.

Sintomas mais comuns

  • Dor na parte lateral do ombro, que pode descer para o braço
  • Dor ao levantar o braço, pentear o cabelo ou alcançar objetos no alto
  • Dor noturna, especialmente ao deitar sobre o lado afetado
  • Fraqueza ou dificuldade para manter o braço elevado

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico começa pela consulta, com a história clínica e testes específicos de força e mobilidade de cada tendão. A ultrassonografia e a ressonância magnética confirmam o tipo, o tamanho e a localização da lesão, além da qualidade do músculo. A radiografia ajuda a avaliar alterações ósseas e artrose associada.

Tratamento sem cirurgia

Para a maioria das lesões degenerativas e das tendinopatias, o tratamento inicial é conservador: orientação sobre atividades, controle da dor e um programa de exercícios.

O estudo GRASP, publicado no The Lancet em 2021, avaliou 708 pacientes com dor no manguito rotador. Um programa de fisioterapia progressiva não foi superior a uma sessão bem feita de orientação com exercícios para casa, e a infiltração com corticoide trouxe alívio apenas no curto prazo, sem benefício após um ano. Na prática, isso mostra que o paciente bem orientado tem papel central no próprio tratamento.

Em roturas não traumáticas do supraespinal em pessoas acima de 55 anos, um estudo finlandês também não encontrou diferença relevante, em um ano, entre fisioterapia e cirurgia.

Quando a cirurgia é indicada

A cirurgia costuma ser considerada nas seguintes situações:

  • Lesão traumática aguda em paciente ativo, com perda de força
  • Dor e limitação que persistem após tratamento conservador bem conduzido, geralmente por 3 a 6 meses
  • Lesões que aumentam de tamanho durante o acompanhamento

O reparo é feito, na maioria das vezes, por artroscopia: o tendão é reinserido no osso com âncoras de sutura, por pequenas incisões. A descompressão subacromial isolada (raspagem do acrômio) tem papel limitado: o estudo CSAW, também publicado no The Lancet, não mostrou benefício clinicamente relevante em relação a uma cirurgia placebo.

Como é a recuperação após o reparo

A cicatrização do tendão no osso é lenta, e respeitar cada fase é o que protege o reparo. O cronograma habitual é este:

  • Semanas 1 e 2 (proteção e controle da dor): tipoia 24 horas por dia, inclusive ao dormir; gelo local três vezes ao dia, por 15 minutos, com pano protetor; movimentos apenas de punho, mão e dedos.
  • Semanas 3 e 4 (continuidade da proteção): tipoia em tempo integral; retirada dos pontos com 14 dias; mobilização do cotovelo três vezes ao dia; caminhadas leves permitidas.
  • Semanas 4 a 6 (retirada da tipoia): início dos exercícios orientados na consulta de retorno e volta às atividades do dia a dia, ainda sem pegar peso com o braço operado.
  • Semanas 6 a 12 (fisioterapia ativa): fisioterapia pelo menos duas vezes por semana; liberação para dirigir; melhora gradual das funções.
  • Após 12 semanas: fortalecimento com carga progressiva e liberação de esportes em geral, após avaliação.
  • Após 6 meses: retorno a esportes com movimentos acima da cabeça, como beach tennis, vôlei e tênis, com liberação médica.

Não fumar durante toda a recuperação é uma das medidas mais importantes, porque o tabagismo prejudica a cicatrização do tendão.

Os principais riscos são rigidez, nova rotura do tendão, infecção e complicações relacionadas à anestesia. A chance de nova rotura é maior em lesões grandes, em tendões de pior qualidade e em pacientes mais velhos, e esses fatores são discutidos individualmente antes da cirurgia.

Os pacientes operados recebem um material impresso com orientações detalhadas de cada fase do pós-operatório, além do acompanhamento nas consultas de revisão.

Perguntas frequentes

Toda lesão do manguito rotador precisa de cirurgia?

Não. Muitas lesões degenerativas, comuns com o avanço da idade, melhoram com fisioterapia e exercícios orientados. A cirurgia é considerada principalmente em lesões traumáticas agudas em pessoas ativas, quando há perda importante de força ou quando o tratamento conservador bem conduzido não traz melhora.

Uma lesão no manguito rotador pode aumentar com o tempo?

Pode. Parte das roturas aumenta de tamanho ao longo dos anos, especialmente as maiores e as que causam dor. Por isso, quem segue em tratamento conservador deve ser reavaliado periodicamente.

Quanto tempo leva a recuperação da cirurgia do manguito?

Em geral, a tipoia é usada em tempo integral por cerca de 4 semanas, a fisioterapia ativa acontece entre a 6ª e a 12ª semana, o fortalecimento com carga começa após 12 semanas e os esportes com movimentos acima da cabeça são liberados a partir de 6 meses. O cronograma varia conforme o tamanho da lesão, a técnica cirúrgica e a evolução de cada paciente.

Referências

  1. Yamamoto A, et al. Prevalence and risk factors of a rotator cuff tear in the general population. J Shoulder Elbow Surg. 2010;19(1):116-20.
  2. Hopewell S, et al. Progressive exercise compared with best practice advice, with or without corticosteroid injection, for the treatment of patients with rotator cuff disorders (GRASP). Lancet. 2021;398(10298):416-28.
  3. Kukkonen J, et al. Treatment of non-traumatic rotator cuff tears: a randomised controlled trial with one-year clinical results. Bone Joint J. 2014;96-B(1):75-81.
  4. Beard DJ, et al. Arthroscopic subacromial decompression for subacromial shoulder pain (CSAW). Lancet. 2018;391(10118):329-38.

Conteúdo escrito e revisado por Guilherme Guimarães Cabral, médico ortopedista e traumatologista, CRM-MG 102060, RQE 62737, com atuação em cirurgia do ombro e cotovelo. Última revisão: outubro de 2026. Este texto é informativo e não substitui a avaliação individual em consulta.

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