Guilherme Cabral — Ortopedista e Traumatologista, Cirurgia do Ombro e Cotovelo

Luxação e instabilidade do ombro

Quando o ombro sai do lugar: primeiros cuidados, riscos e tratamento.

O ombro é a articulação de maior mobilidade do corpo e, por isso, a que mais sofre luxação. A luxação acontece quando a cabeça do úmero sai completamente da glenoide, geralmente para a frente (luxação anterior), após uma queda ou um movimento forçado do braço.

Luxação e instabilidade: qual a diferença

A luxação é o episódio em que o ombro sai do lugar. A instabilidade é a tendência de o ombro voltar a sair ou de ficar parcialmente fora do lugar (subluxação), com sensação de insegurança em certos movimentos. A primeira luxação costuma lesar o lábio e os ligamentos da frente do ombro (lesão de Bankart), e é essa lesão que favorece novos episódios.

O que fazer na hora da luxação

  • Imobilize o braço na posição mais confortável, sem forçar
  • Procure um pronto atendimento para radiografia e redução
  • Não tente colocar o ombro no lugar sem avaliação médica

Formigamento, perda de força na mão ou alteração de cor no braço exigem atendimento imediato.

Risco de novos episódios

A idade é o principal fator de risco. Em um estudo escocês com pacientes de 15 a 35 anos, mais da metade apresentou nova instabilidade nos dois primeiros anos após a primeira luxação. Esportes de contato e de arremesso, perda óssea na glenoide e frouxidão ligamentar aumentam esse risco.

Acima dos 40 anos, a recidiva é menos comum, mas a luxação se associa com mais frequência a lesões do manguito rotador e de nervos. A avaliação após a redução é importante também nessa faixa etária.

Como é feito o diagnóstico

O exame clínico avalia a estabilidade, a força e possíveis lesões nervosas. A radiografia confirma a redução e afasta fraturas. A ressonância magnética mostra lesões do lábio, dos ligamentos e do manguito, e a tomografia mede a perda óssea, que é decisiva na escolha da técnica cirúrgica.

Tratamento

Conservador

Após a redução, usa-se tipoia por um período curto, seguida de reabilitação para recuperar movimento e fortalecer os músculos estabilizadores. É uma opção adequada para muitos pacientes, especialmente os de menor risco de recidiva.

Cirúrgico

A cirurgia é considerada em quem tem episódios repetidos ou alto risco de recidiva, como jovens atletas. As técnicas mais utilizadas são:

  • Reparo de Bankart por artroscopia: o lábio e os ligamentos são reinseridos na glenoide com âncoras de sutura.
  • Cirurgia de Latarjet: descrita em 1954 pelo cirurgião francês Michel Latarjet, em Lyon, consiste na transferência de um pequeno fragmento ósseo para a frente da glenoide. É indicada principalmente quando há perda óssea significativa ou falha de cirurgia anterior.

Os riscos incluem nova instabilidade, rigidez, infecção e, mais raramente, lesão de nervos. A escolha da técnica depende da perda óssea, do esporte praticado e das expectativas de cada paciente.

Perguntas frequentes

Posso colocar o ombro no lugar sozinho?

Não é recomendado. A redução deve ser feita por um médico, de preferência em pronto atendimento e após radiografia, para evitar lesões de nervos, vasos ou fraturas associadas.

Depois da primeira luxação, o ombro vai sair de novo?

Depende principalmente da idade e do nível de atividade. Em jovens ativos, especialmente praticantes de esportes de contato, a chance de novos episódios é alta. Em pessoas mais velhas, a recidiva é menos frequente, mas lesões associadas do manguito rotador são mais comuns.

Quanto tempo depois da cirurgia de instabilidade posso voltar ao esporte?

Em geral, entre 4 e 6 meses, após recuperar movimento, força e confiança no ombro. Esportes de contato e arremesso costumam exigir o período mais longo.

Referências

  1. Robinson CM, et al. Functional outcome and risk of recurrent instability after primary traumatic anterior shoulder dislocation in young patients. J Bone Joint Surg Am. 2006;88(11):2326-36.
  2. Hovelius L, et al. Nonoperative treatment of primary anterior shoulder dislocation in patients forty years of age and younger: a prospective twenty-five-year follow-up. J Bone Joint Surg Am. 2008;90(5):945-52.

Conteúdo escrito e revisado por Guilherme Guimarães Cabral, médico ortopedista e traumatologista, CRM-MG 102060, RQE 62737, com atuação em cirurgia do ombro e cotovelo. Última revisão: outubro de 2026. Este texto é informativo e não substitui a avaliação individual em consulta.

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